Meu figurado amor

Teria sido o vento
ou a luz de Atenas
Teria sido a curva
ou a dor apenas
Teria sido sonho
ou o mar de avenas.
Quem dera fosse amor
em quietas cenas
Quem dera fosse dia
apaziguando penas.
Quem dera fossem palavras
como Mecenas
Protetoras de meu eu
minha angústia apenas.

Foto e poema: Ronaldo Sérgio

À luz das lamparinas

Conto30

Viver à luz das lamparinas. Uma luz quente e firme, de um fogo que parece não se apagar. É mistério. Ao redor das chamas que não iluminam tudo. Que guardam as belezas da noite. É como ser luz e não ter luz. Flamas que são retratos. Frágeis como nós. Trazem consigo o essencial. Viver é na lentidão.

O pavio se queima. Nunca até o fim. A brisa da noite que o diga. Perfuma a sala, a cozinha, o quarto… nossa alma. Ali ao redor pode-se contar casos, ouvir histórias. As vozes estão mais livres do medo.

Sua luz vermelha nos conforta. Sua claridade misturada com a escuridão é o coração da casa. É de se ver. A lamparina traz a luz amiga da escuridão. O que nos assusta é a penumbra.

Sua luz tem cheiro. Dá fome na gente. Seu balanço dá sono. Dorme-se em paz. Sem medo do amanhã.

Com ela, o tempo parece estar tecido com fios sutis e eternos. A noite é noite. Somos o que somos. Não há fuga. Nem se prolonga o dia encurtando a noite. Sentado no banco brinca-se com caixinhas de fósforos. Ao redor da vida… vivendo.

 

Foto de todocauso

Ronaldo Sérgio

Voa liberdade

Essa música é tudo o que quero ouvir….

Linda.

Faustoso chapéu

Desdobra em si
gentileza fina
o contorno leve
da alma a sina
de ser bela.

Esconde os sonhos
de menina, aquece
a pele de mulher
de amor incandesce
até o fim.

Sem tí, ó faustoso
que honra o rosto
que desata o véu
e o sofrimento tosco,
ficaria a dor.

A face enobrecida
contigo fica até mais linda
coroada de cor
como em morada eterna
cheia de amor.

Ó faustoso chapéu!
A ti guardei em palavras
o que tu em mim lavras
caminhando contigo
contigo em mim.

Ronaldo Sérgio.

Adoro chapéus… Acho galã para os homens e belíssimo para as mulheres. Poema inspirado no post do blog acima mencionado (na foto). Abrs.

Deus recostado a uma árvore

Foto1

Foto do google

Ouço você chorando em meu quintal
banhando-se com o orvalho
sedento pelo céu.

Ouço deus gemendo entre as folhas
recostado ao tronco da árvore
sedento para ser deus.

Depois que veio morar conosco
nunca o deixamos partir
o céu está longe demais.

Que chore e que beba o que bebemos
permanecerá sempre aqui
desgostoso dos homens.

Um deus recostado a uma árvore
sedento de divindade
sedento do céu.

O que me importa se disserem:
cultive a deus.
acredite em deus.

Sim, acredito, mas des-acredito
o deus que fica misturado com o mundo
misturado com o pensamento
misturado com a dor
misturado com a plena alegria
misturado com o paraíso
misturado com o mal
misturado com o amor
misturado com o que os homens querem
deus morto.

Acredito sim,
em deus que não é deus,
mesmo que não queira ser deus
porque não é o que é
nem o que penso
nem o que amo
nem o que faço
nem o que sonho
nem é o que acredito
nem o que desejo que seja deus.

Ronaldo Sérgio

Tudo é mundo

Conto23

Salvador Dali – O sonho

Depois de Freud toda interpretação dos sonhos acaba tendo um sabor psicanalítico. Os desejos, geralmente relacionados à sexualidade e incubados no inconsciente, vêm a tona como manifestações noturnas. As razões são simples. Enquanto dormimos nosso consciente também adormece perdendo forças e deixando brechas para o grito das enormes energias inconscientes.
Um desses gritos ouvi a noite passada. Não foi nem suave e nem medonho. Foi estranho apenas. Sonhei com os sons da terra, com as brincadeiras de deus, com as pessoas amarradas a um cordão sendo desenhadas pelo vento. Sonhei com os desejos dos bichos, com a alma das plantas e o cheiro dos riachos correndo entre as pedras. Sonhei com o beijo entre os povos, com o perfume da lua e o abraço dos céus. Sonhei com lugares longínquos rasgando meu peito e me enchendo de dor, com a pobreza e a fartura de vida, com o riso e o choro, com o sopro do agora que já se foi.
Sonhei com as janelas abertas, sem grades e alarmes, com as pedras quebradas dos corações e com a loucura inocente do amanhã. Sonhei com o fogo ardente, com o fim do dinheiro, da compra e da venda, com as mãos calejadas, o suor e o cansaço da alma órfã. Sonhei com a ciranda dos poderosos dançando descalços no terreiro de chão, com a beleza das rosas, com o canto das pétalas escorrendo entre os dedos e morrendo com o sol. Sonhei com a fuga dos anjos das imagens de gesso, com santos filhotes ainda indefesos, com o ninho da vida, com a morte e o mal. Sonhei com porteiras antigas de estradas de terra, com a força da lentidão, com o amor que espera olhando da janela seu bem fazer a curva e não voltar com o pão.
Sonhei com o abraço das pedras, com rodovias destruídas, com o canto das máquinas e o ruído dos corações, com gente insatisfeita sofrendo a delícia de sempre querer algo em vão. Sonhei com a luta divina pra sair das igrejas, dos templos de tejolos e cimento, frios e sem vida, lotados de gente vazia por dentro. Sonhei com rezas e preces sufocando a deus, com o direito divino de ter o que tem e de ser o que é, com sermões obscenos desnudando o céu. Sonhei com a chuva, a goteira em casa, com os sons da brisa e o orvalho da manhã, com pais separados, pais ajuntados, filhos trincados, sofrimento e dor.
Sonhei com os buracos na alma, com os desejos sem nome, com as horas que passam e passam e passam. Acordei com o grito e pensei em ti. Talvez o mesmo grito te acorde e veja, como vi, que fora de nós tudo é mundo. Mas dentro de nós a fartura de alma é tão grande que se derrama em sonhos.

Ronaldo Sérgio

Poemas que nascem do nada

DSCI3640

Goteiras

Chove pesado em meu quintal
apenas em meu quintal
mas não deixo ninguém notar
as goteiras em meu semblante
fazendo jorrar pedaços de minha alma.

Cipós

Minha alma é torta como cipós entrelaçados.
Um desejo aqui, uma sombra ali,
uma vontade nunca satisfeita,
sonhos espedaçados,
a esperança e o amor.

DSCI3658

Morte

Sem chances…. te amo assim mesmo
de manhã e de tarde
molhados por fora e por dentro
até que apareça a morte
mas não depois dela.

 Inutilidades

Quero estripar as palavras
rasgar os signos e os sentidos
compilar os restos em minha lista de inutilidades
e parar de me debater
procurando poemas onde não moram.

Ronaldo Sérgio