Tenebrosa beleza

7.08.2016 - 1

Diz-me,
tenebrosa beleza
o que escondes
tão longe de mim
vindo assombrar-me
com a força do vento.

Conta-me
terna escuridão
o que contigo trazes
revirada em mim
chegando assustar-me
na curva do tempo.

Figura-me
terrível encanto
se foi o amor, a dor ou a flor
que te deixaram assim
querendo aturdir-me
vazio dos sonhos.

Carrega-me
pois, carrega-me contigo
leva o que tens e o que tenho
não me deixes só no desamparo
sentado na praia
sofrendo minha dor.

Foto de Jale Elaj
Ronaldo Sérgio

Anúncios

A porta e o vento

13735103_588284084686577_7706938813948710139_o

Tristes lembranças
da luz fosca
escavada lá dentro
em minh’alma.

A porta e o vento
o amor e o tempo
o chapéu e o lamento
ficaram sem mim.

Agora sem termo
no escuro mais negro
no canto que vejo
é a falta de ti

A parede nua
o santo mudo
na porta o batente
grita insolente:

Volte!Volte!

Foto de Zé Veloso

Ronaldo Sérgio

Bela

24.05.2016 - 1

Pedi à rua
o laço que me desembaraça
sua ternura fluida
seu corpo cortando o tempo.

Passa,
afasta os vãos
contorce os dias
meu desamparo enorme
ao andar tão lenta.

Bela,
agita o vento
o pesar das pálpebras
meu querer debulha
as horas que não passam.

Vai…
e nunca mais volta.

Deveria ter te pedido em casamento.

Foto de Jali Elaj
Ronaldo Sérgio

Pétalas do anoitecer

29.05.2016 - 1

 

Somente um dia. Deixe-me tentar. Apenas um dia. Dê-me um beijo e venha espalhar comigo essas pétalas.

Saíram…

À tardinha tudo é bem diferente. O amor anoitece. Belo e terno. Mas não dorme. Ama-se com a fibra do sol se pondo. Fica querendo deixar rastros. E deixa… sempre deixa.
Espalharam pétalas na entrada de casa. Brancas, vermelhas, amarelas, pequeninas e grandes. Eram lindas. Deixaram suas mão perfumadas. O olhar bonito. O coração aquecido.

Olharam-se.
__ Venha sentar-se, meu amor!

Esperavam. Com o cheiro doce e temperado do anoitecer ainda criança. A comida pronta e mesa feita. Eram seus amigos. Viriam para o jantar. Naquela noite. As pétalas brilhavam com a luz da varanda.

Viram… se olharam…
__ Nossa, que lindo!
__ Sempre cheios de carinho!

Nem bateram à porta. Já estava aberta. Tinham ouvido o barulho. Sentido o tempo deles. E ido ao seu encontro. Abraçaram-se… sobre as pétalas. Entraram…

Foto de Jale Elaj
Ronaldo Sérgio

Abraça-me aos poucos

Jale Elaj2 (2)

Pesado me sinto
quase insuportável sem ti
aturo em mim
tristonhos desejos
e passo o tempo
catando porções
quando aqui perto
te agarrava aos beijos.

Amo aos trechos
porque dói
carregar em mim
o que sempre esboça
em seu olhar
quando vai embora.

Com o vento
pedaços caem de ti
e leva de mim
meu amor retalhado
a casa cheia
de seu jeito de amar
machuca minha alma.

Sereno me sinto
aos acenos que vem de ti
gritando pra mim
a volta pra casa
derramando afeto
abraça-me aos poucos.

“Te amo!”

Foto de Jale Elaj – Google+
Ronaldo Sérgio

O Morto!

Zé Veloso

Sobras de tempo
nas gretas e o susto
do grito nas sombras.
Atrás do muro
o vagar da vida,
entre as folhas,
tosca como as pedras.

Tropeça em seus pés
a brisa enlevada
distraída aos sussurros
com a morte e o nada.
Cai em si,
o mundo pendido,
a ave tombada.

Figuram os galhos
o oco da vida,
o frágil estilhaço
de corpo estendido.
A doçura da morte
ao descaso se esconde
dormindo contigo.

Esbarra-se aos becos
nos arredores da gente,
sem azos à dor
alheio ao olhar
de quem passa espantado,
espalmando ao largo
a fronte seca: morto.

Ronaldo Sérgio

O tempo de Heráclito

Artigo1

Foto do google

Vivemos o tempo de Heráclito
o rio de Heráclito
o banho de Heráclito

Morremos sem ser o que somos
a cada instante vivemos
como passa o rio.

Tudo flui se tornando outro
parecendo o mesmo
sem sentido novo.

Vivemos a dor de Heráclito
o medo de Heráclito
o vazio de Heráclito

A única certeza, a triste certeza
é que tudo está sendo
sendo o que agora não é.

Aleijados no ser
passamos com o tempo
e nunca mais voltamos.

Ronaldo Sérgio