Mãe

conto35

Gerar

Amaste-me mais que tudo
tecendo-me em teu ventre
Abraçaste-me com terna ventura
de amor eterno
sofrendo uma dor agreste
fazendo-me amar-te sempre.

Nascer

A dor que em mim doía
tremendo nos teus braços
era o desamparo d’alma
lenta e frágil
amparada em teu regaço

Crescer

Sentindo-te outra
resvalando em ti meu corpo
entre afagos e afetos
deixaste sentir-me um outro
entranhando n’alma
seus toques de amor, oh mãe.

Cuidar

Os trechos que mais chorava
era a dor da solidão
destronada dos cuidados
desejando mover mundos
pra tirar minha aflição
curava-me ver-te assim
entre mimos amando-me.

Morrer

O tempo da vida é o corpo
sem hora é a alma
cicatrizada de amor
afigurando o eterno
no peito meu que ficou
seu amor é meu amor,
pra sempre.

Foto de Pinterest
Poema: Ronaldo Sérgio

A alma e o rancho

Ranchinho lindo

No morro da vida
sem janelas e portas
sem grades de ferro
aberta e pequena
virada pr’o sol
de ares serena
é a alma
a carregar consigo
os segredos dos céus.

Sentados no rancho
a contar histórias
com brilho nos olhos
com a faca na mão
o cigarro de palha
a enxada no chão
é a alma
a rasgar em si
o mundo de Deus.

Rancho dos lobos
da serra o recado
com flores do lado
carente de amor
nas noites chuvosas
chora o pavor
é a alma
a segurar pra ti
o riso sem véus.

É alma o rancho
o trecho de calma
o abrigo modesto
nas horas de horror
de trovões e granizos
do cansativo labor
é o rancho
a acolher peregrinos
que dizem adeus.

 

Ronaldo Sérgio

Abraça-me aos poucos

Jale Elaj2 (2)

Pesado me sinto
quase insuportável sem ti
aturo em mim
tristonhos desejos
e passo o tempo
catando porções
quando aqui perto
te agarrava aos beijos.

Amo aos trechos
porque dói
carregar em mim
o que sempre esboça
em seu olhar
quando vai embora.

Com o vento
pedaços caem de ti
e leva de mim
meu amor retalhado
a casa cheia
de seu jeito de amar
machuca minha alma.

Sereno me sinto
aos acenos que vem de ti
gritando pra mim
a volta pra casa
derramando afeto
abraça-me aos poucos.

“Te amo!”

Foto de Jale Elaj – Google+
Ronaldo Sérgio

Jarras velhas

Zé Veloso1

Foto de Zé Veloso

Teria um outro sorriso, se fosse um outro alguém. Os traços de sua face pareciam caminhos. Atraíam-me. Eram envolventes. Tentei caminhar por eles. Foi em vão. Foram eles que caminharam por mim. Passaram como um vendaval pelos textos de minha alma. Varreram toda pretensão e egoísmo. Limparam as suposições de dor que eu guardava. O sofrimento, a minha vanglória, sumiu.

O amor e a esperança moravam fora de mim, percebi. Habitavam entre aqueles traços da face dela. Eram ranchos em seus campos. Em mim, senti um vazio enorme. A penúria de sentido. Desconstruído por dentro. Carente de beleza. Beleza que ela deixou cair em minha alma. O amor e a esperança de um sorriso transformador. Sorriso que planta flores em jarras velhas. Trincadas.

Mostrou-me a casa onde morava. Nada de excesso nos quartos – nem na alma. Havia um riacho pequeno lá fora. Ouvíamos o barulho das águas, sentados na cozinha. Preparava o café…

Ronaldo Sérgio