Patinho!

Estava indo ao mercadinho quando ví este patinho de plástico pela estrada. Tirei esta foto com meu celular. Sabadão e nada pra fazer, escrevi este poema muito simples. Enfim… ai está.

Patinho

Ronaldo – tirada com o celular

Que sentido tem um pato
um pato pelo caminho
perdido, jogado fora,
velho e pequenino?

Que sentido tem um pato
um dia um brinquedo lindo
de plático e já desbotado
aqui e acolá mordido?

Que sentido tem um pato
um patinho de nada
de bico avermelhado
nadando pelo caminho?

Que sentido tinha passar por ele
apenas pra cumprir um rito
pensando em outras coisas
que pereciam ter mais sentido?

Ronaldo Sérgio

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Bicho abrutalhado

DSCI3517

Ronaldo Sérgio

Minha alma é o rancho
a bica d’água serena
a foice, a enxada, o gancho
e a flor de açucena.

Minha alma é arame farpado
a várzea, a montanha e o céu
o caminho ensolarado
e os pedregulhos ao léu.

Minha alma é os cafesais
a chão seco e molhado
o vento sobre os arrozais
e o bicho abrutalhado.

Minha alma é a gruta de pedras
o riacho brando e frio
as seriemas nas serras
e o berro das bestas no cio.

Minha alma é o sangue no chão
o suor nas camisas rasgadas
o calo dorido na mão
as brasas já apagadas.

Minha alma não sou eu
sou borrões espatifados
velho como velho é Deus
vivendo de eternos fados.

Ronaldo Sérgio

Velho caduco!

Livro de folhas velhas
pigmentadas de marrom,
aqui e ali com rastros de traças,
buraquinhos de cupim
e o cheiro de coisa abandonada
atrai minha atenção.

Num quartinho fechado, há anos,
um mundo se abriu, em abril,
Se fechou-se? Não, nunca.
Se fechasse, sumiria o amor
a imaginação e a candura dos meus olhos.

Foi ali, entre teias de aranha,
traças, cupins e o veneno do tempo
primavera após primavera,
quem dera, soubesse antes que estava ali.
O livro… envelhecido como gente envelhece.

Tomei-o nas mãos, abri.
Frágil, fino, sensível, mas forte.
Palavras soltaram lá de dentro
encheram meus olhos
povoaram meu peito
e ficaram brincando de ciranda por muitos anos.

Hoje, um pouco mais velho,
como velho era o livro,
suspiro e brinco de ciranda,
enquanto dizem que estou louco,
um velho descabeçado e caduco.
Mas, fico com o livro só pra mim,
guardado aqui dentro, dentro do peito.

Ninguém sabe,
minha loucura foi ler
ler até mijar nas calças e depois dormir,
ler até ficar assim como sou,
endoidecido.
Endoidecido e quieto de tanto prazer.

Ronaldo Sérgio