Meu figurado amor

Teria sido o vento
ou a luz de Atenas
Teria sido a curva
ou a dor apenas
Teria sido sonho
ou o mar de avenas.
Quem dera fosse amor
em quietas cenas
Quem dera fosse dia
apaziguando penas.
Quem dera fossem palavras
como Mecenas
Protetoras de meu eu
minha angústia apenas.

Foto e poema: Ronaldo Sérgio

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Bela

24.05.2016 - 1

Pedi à rua
o laço que me desembaraça
sua ternura fluida
seu corpo cortando o tempo.

Passa,
afasta os vãos
contorce os dias
meu desamparo enorme
ao andar tão lenta.

Bela,
agita o vento
o pesar das pálpebras
meu querer debulha
as horas que não passam.

Vai…
e nunca mais volta.

Deveria ter te pedido em casamento.

Foto de Jali Elaj
Ronaldo Sérgio

Narrativas de amor

Narrativas curtas de amor são poemas do correr do dia.

Dia1

Dia2 Dia3 Dia4 Dia5 Dia6 Dia7 Dia8 Dia9 Dia10

 

Ronaldo Sérgio

Solidez de alma

Foto de José Veloso

Foto de Zé Veloso

A casa que mora em mim é assim:
entra o sol, passa o vento
e fica o cheiro da chuva de ontem.

Os cordões de luz
afrontam-lhe a solidez
batem contra o chão
e parecem rir das grossuras do frio.

Tudo lá fora mora ali dentro
o ruído do mundo e o espírito de Deus.

As portas e janelas, recostadas ao canto,
fazem sombras, balançando com o tempo.

Sua dor é a de ser alma
de ser corpo e de ser mundo
sempre cheia de vãos
de tanto compilar sonhos.

Ronaldo Sérgio

Desamarrada do mundo

Vassoura1

Pelos campos a cortar vassoura,
sentia uma angústia infinda,
como um oco fundo no peito,
como um lampejo sem sentido ainda,
um calafrio pelo corpo inteiro,
uma luz opaca lhe cegando a vista.

Pelos campos a cortar vassoura,
sentia uma pesada calma,
o vento lhe tocando o corpo,
recusando tocar-lhe a alma.
o olhar longe, absorto,
distrai-se com o próprio trauma.

Pelos campos a cortar vassoura
sentia o peito oprimido.
Com o sol lhe queimando o rosto
e o cheiro de alecrim florido,
que traía-lhe a vontade e o gosto
de varrer da vida o lixo.

Pelos campos a cortar vassoura,
sentia a dor de ser uma só,
de ter que manejar a vida,
sofrendo para desatar o nó.
O nó da má-fé da lida,
como mãe, mulher e avó.

Pelos campos a cortar vassoura,
sentia a vida afastar-se de si,
o chão já não existia,
nem via mais o alecrim.
Desamarrada do mundo, ia
caindo morta sobre o capim.

Ronaldo Sérgio

A lentidão da vida

 

Conto19

Fotos do google

Um momento inesperado
trouxe consigo a dor
e a lentidão da vida.

Debatendo-se no chão
não conseguia falar,
mas gemia e chorava de dor.

Parecia uma casca seca
levada pelo vento forte
dos carros em velocidade.

Se revirando asfalto afora
queria apenas ir embora
pro outro lado da estrada.

Era um bicho, um lagarto
se contorcendo no asfalto
de dor que não era minha.

A minha dor era outra
de vê-lo espatifado
entre os pneus dos carros

Tão de repente um nada
que como eu respirava
e vivia no mundo de Deus.

Agora, nesta nova aurora
jorra minha dor como outrora
vendo a vida se acabar.

Ronaldo Sérgio