Chorando

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Importunar o vento não posso
e pedir-lhe que te acompanhe
que não se afaste de ti
que segure os seus passos no calar da noite
que toque o seu corpo purificando o seu amor
e nem implorar-lhe que te conte os segredos
dos meus pensamentos.

Não quero discutir com o sol
que entra pela janela
e me deixa só,
nem com as tristes garoas
a tocar minhas flores no quintal
chorando por ti
desejando-te o teu perfume
o balanço do seu andar
o tom da sua voz.

Só quero rogar aos riachos para que voltem
que retirem a escuridão do seu caminho
para te pedir perdão
e acreditar que posso ti amar
todas as tardes
e todas as manhãs.

 

Foto de Jale Elaj
Poema de Ronaldo Sérgio

 

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Nua

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Entre… mal abriu a porta. A brisa tocava-lhe o rosto. Sustentada pela eterna expansão da noite. Seu desejo rasgava-lhe o riso. Despercebida. Era o mundo entregue a ela. A brandura do calor do corpo dele. O tom da sua voz. Completamente envolta. Dentro dele. Deu-lhe um beijo. Um abraço. Entraram.

Venha! Sente-se…. estou quase pronta. Segura-lhe a mão. Comprimida pela maciez de seu perfume. Saiu. O quarto a volvê-la toda. Nua. Trocava-se com a lentidão do toque. Fugidio era o pensamento nele. Na sala. À espera dela.

Sairam àquela noite….

 

Ronaldo Sérgio

Foto: Google

Meu figurado amor

Teria sido o vento
ou a luz de Atenas
Teria sido a curva
ou a dor apenas
Teria sido sonho
ou o mar de avenas.
Quem dera fosse amor
em quietas cenas
Quem dera fosse dia
apaziguando penas.
Quem dera fossem palavras
como Mecenas
Protetoras de meu eu
minha angústia apenas.

Foto e poema: Ronaldo Sérgio

Delicada

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Repousa aqui o seu canto
tão cedo acordada
fiando finuras em mim.
Sua delicada beleza
fascina-me tanto
cada dia é um trecho
devagar como a vida.
Percorro meu rosto
desenhado no espelho
e voo e canta em meu peito
a doçura de ser
longe da noite
debaixo da luz do sol
contigo ao amanhecer.

Foto e poema: Ronaldo Sérgio

Mãe

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Gerar

Amaste-me mais que tudo
tecendo-me em teu ventre
Abraçaste-me com terna ventura
de amor eterno
sofrendo uma dor agreste
fazendo-me amar-te sempre.

Nascer

A dor que em mim doía
tremendo nos teus braços
era o desamparo d’alma
lenta e frágil
amparada em teu regaço

Crescer

Sentindo-te outra
resvalando em ti meu corpo
entre afagos e afetos
deixaste sentir-me um outro
entranhando n’alma
seus toques de amor, oh mãe.

Cuidar

Os trechos que mais chorava
era a dor da solidão
destronada dos cuidados
desejando mover mundos
pra tirar minha aflição
curava-me ver-te assim
entre mimos amando-me.

Morrer

O tempo da vida é o corpo
sem hora é a alma
cicatrizada de amor
afigurando o eterno
no peito meu que ficou
seu amor é meu amor,
pra sempre.

Foto de Pinterest
Poema: Ronaldo Sérgio

Esquecedor do céu

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Esquecemos o horror
O sopro do vento
vivendo o desalento aos risos
e os sofrimentos

Esquivamo-nos da morte
e do sol que nasce
caminhando a passos largos
no assoalho do mal

Desprezamos as lágrimas
a cambuca d’água
cheia do horror alheio
estilhaçada.

A sede insatisfeita desgosta
a dor desgosta
a violência desgosta

Roubamos de Deus:
o horror de ser o que é
sem poder ser sem horror
pobre esquecedor do céu.

Ronaldo Sérgio

Enjeitados de Deus

Conto33

Poema inspirado no romance de Eça de Queirós: O crime do padre Amaro

Dorme,
fria e pálida
estendida na cama
esquecida dos beijos
e vazia de sangue
do choro do filho
arrancado de si.

Vivia
corroída de horror
da culpa e do inferno
sem amparo de Amaro
que a abandonou.

Sofreste,
sim, por amor
com o peso do céu
e o fardo do mundo
a julgando feroz
de seu rebento extorquindo
o direito da vida
enjeitados de deus.

Crime
confabulado com rezas
dum padre que às pessas
covarde e sem dó
matou: mãe e filho.

Ronaldo Sérgio

Há uma resenha muito bem feita no blog IDEIAFIX