Delicada

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Repousa aqui o seu canto
tão cedo acordada
fiando finuras em mim.
Sua delicada beleza
fascina-me tanto
cada dia é um trecho
devagar como a vida.
Percorro meu rosto
desenhado no espelho
e voo e canta em meu peito
a doçura de ser
longe da noite
debaixo da luz do sol
contigo ao amanhecer.

Foto e poema: Ronaldo Sérgio

Mãe

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Gerar

Amaste-me mais que tudo
tecendo-me em teu ventre
Abraçaste-me com terna ventura
de amor eterno
sofrendo uma dor agreste
fazendo-me amar-te sempre.

Nascer

A dor que em mim doía
tremendo nos teus braços
era o desamparo d’alma
lenta e frágil
amparada em teu regaço

Crescer

Sentindo-te outra
resvalando em ti meu corpo
entre afagos e afetos
deixaste sentir-me um outro
entranhando n’alma
seus toques de amor, oh mãe.

Cuidar

Os trechos que mais chorava
era a dor da solidão
destronada dos cuidados
desejando mover mundos
pra tirar minha aflição
curava-me ver-te assim
entre mimos amando-me.

Morrer

O tempo da vida é o corpo
sem hora é a alma
cicatrizada de amor
afigurando o eterno
no peito meu que ficou
seu amor é meu amor,
pra sempre.

Foto de Pinterest
Poema: Ronaldo Sérgio

Esquecedor do céu

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Esquecemos o horror
O sopro do vento
vivendo o desalento aos risos
e os sofrimentos

Esquivamo-nos da morte
e do sol que nasce
caminhando a passos largos
no assoalho do mal

Desprezamos as lágrimas
a cambuca d’água
cheia do horror alheio
estilhaçada.

A sede insatisfeita desgosta
a dor desgosta
a violência desgosta

Roubamos de Deus:
o horror de ser o que é
sem poder ser sem horror
pobre esquecedor do céu.

Ronaldo Sérgio

Enjeitados de Deus

Conto33

Poema inspirado no romance de Eça de Queirós: O crime do padre Amaro

Dorme,
fria e pálida
estendida na cama
esquecida dos beijos
e vazia de sangue
do choro do filho
arrancado de si.

Vivia
corroída de horror
da culpa e do inferno
sem amparo de Amaro
que a abandonou.

Sofreste,
sim, por amor
com o peso do céu
e o fardo do mundo
a julgando feroz
de seu rebento extorquindo
o direito da vida
enjeitados de deus.

Crime
confabulado com rezas
dum padre que às pessas
covarde e sem dó
matou: mãe e filho.

Ronaldo Sérgio

Há uma resenha muito bem feita no blog IDEIAFIX

Tenebrosa beleza

7.08.2016 - 1

Diz-me,
tenebrosa beleza
o que escondes
tão longe de mim
vindo assombrar-me
com a força do vento.

Conta-me
terna escuridão
o que contigo trazes
revirada em mim
chegando assustar-me
na curva do tempo.

Figura-me
terrível encanto
se foi o amor, a dor ou a flor
que te deixaram assim
querendo aturdir-me
vazio dos sonhos.

Carrega-me
pois, carrega-me contigo
leva o que tens e o que tenho
não me deixes só no desamparo
sentado na praia
sofrendo minha dor.

Foto de Jale Elaj
Ronaldo Sérgio

Pesteado

 

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Penumbra
devagar divaga em seu olhar
voa tomando espaço
e os resquícios do sol
caem lentos
quando os medos
tomam conta dele
estacou-se vendo.

Redemoinho
na curva da estrada
virando os vãos
apossando-se dele
que deixa os passos
trêmulo apressados
fora de si
segurando-se mal
ao capeta atento.

Pesteado
vai de revés voltando
o olhar pra trás
recostando ao léu
sua lembrança doce
de quando menino
virava a vida
como o poeira vira
ao sabor do vento.

O capeta estava dentro dele.

Foto: mana5066
Ronaldo Sérgio

A alma e o rancho

Ranchinho lindo

No morro da vida
sem janelas e portas
sem grades de ferro
aberta e pequena
virada pr’o sol
de ares serena
é a alma
a carregar consigo
os segredos dos céus.

Sentados no rancho
a contar histórias
com brilho nos olhos
com a faca na mão
o cigarro de palha
a enxada no chão
é a alma
a rasgar em si
o mundo de Deus.

Rancho dos lobos
da serra o recado
com flores do lado
carente de amor
nas noites chuvosas
chora o pavor
é a alma
a segurar pra ti
o riso sem véus.

É alma o rancho
o trecho de calma
o abrigo modesto
nas horas de horror
de trovões e granizos
do cansativo labor
é o rancho
a acolher peregrinos
que dizem adeus.

 

Ronaldo Sérgio