A alma e o rancho

Ranchinho lindo

No morro da vida
sem janelas e portas
sem grades de ferro
aberta e pequena
virada pr’o sol
de ares serena
é a alma
a carregar consigo
os segredos dos céus.

Sentados no rancho
a contar histórias
com brilho nos olhos
com a faca na mão
o cigarro de palha
a enxada no chão
é a alma
a rasgar em si
o mundo de Deus.

Rancho dos lobos
da serra o recado
com flores do lado
carente de amor
nas noites chuvosas
chora o pavor
é a alma
a segurar pra ti
o riso sem véus.

É alma o rancho
o trecho de calma
o abrigo modesto
nas horas de horror
de trovões e granizos
do cansativo labor
é o rancho
a acolher peregrinos
que dizem adeus.

 

Ronaldo Sérgio

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O Morto!

Zé Veloso

Sobras de tempo
nas gretas e o susto
do grito nas sombras.
Atrás do muro
o vagar da vida,
entre as folhas,
tosca como as pedras.

Tropeça em seus pés
a brisa enlevada
distraída aos sussurros
com a morte e o nada.
Cai em si,
o mundo pendido,
a ave tombada.

Figuram os galhos
o oco da vida,
o frágil estilhaço
de corpo estendido.
A doçura da morte
ao descaso se esconde
dormindo contigo.

Esbarra-se aos becos
nos arredores da gente,
sem azos à dor
alheio ao olhar
de quem passa espantado,
espalmando ao largo
a fronte seca: morto.

Ronaldo Sérgio

Ferida

15.05.2016

Tamanha insensatez
e estúpida brutalidade
foi te cortar tão cedo
levados pela beleza
pelo prazer em tê-la
para enfeitar seus egos

Não estavam colhendo flores
bárbaros sem amor
Estavam te arrancando
pequena e indefesa,
frágil de alma ilesa
do mundo da vida

Presa no eterno fato
e acorrentada pela infinita dor
a violência é o muro
à sua frente ó Ferida.
Mas, esquecerão de ti
e ficará sem mim
para te acolher.

Quem dera passasse
e ficasse em cada lar
para estilhaçar o medo
de lutar pela paz.

Foto de Jale Elaj

Ronaldo Sërgio

Deus mutilado

Zé Veloso2

Foto de Zé Veloso

Confesso.
Deus não morreu.
Está mutilado.
Mutilaram-no longe do céu,
dando-lhe um lugar perto de mim
fisgando a minha pele.
e flagrando a minha dor.

Toda escuridão atrás do morro
caiu aqui dentro
em mim, fazendo preces,
enquanto cantavam ladainhas
do sofrimento humano
vestindo-o com elas,
com mazelas e mazelas

Aleijaram meu humor.
Zombaram de minha dor.
Insuportável dor
que segura a vida
que sustenta silenciosa
minha alma quase cativa
insatisfeita de tudo
agarrada ao mundo
à procura de Deus.

 

Ronaldo Sérgio

Marteladas de não

Procurava uma bica d’água
balançando o corpo ao andar
Pisava com incerteza
e sem firmeza no olhar.
Falava enrolando a língua,
apressado e sem parar.
Era um senhor sem beleza,
baubuciando ao céu pra ajudar.

Não exitou em pisar o gramado
do jardim descuidado que havia,
onde ratos fugiam ao léu
da luz do sol que surgia.
Aproximou-se abismado
da bica d’água que via,
bebeu e olhou ao céu
no marasmo daquele dia.

Voltou a sentar-se no banco,
inquieto por ter que esperar.
Cortando os atalhos do horror
do espírito que não atura ficar
amarrado num tempo em branco.
Sem profundeza no olhar
revivia o primeiro terror
das auroras de seu lar.

De repente, ficou teso e disperso
consigo mesmo entretido,
fuçando as bagunças da mente
querendo encontrar sentido
no mundo sempre adverso,
às falcatruas do incontido
do incontido desejo premente,
ao silêncio abduzido.

E assim ficou horas e horas
sem conseguir tocar a alma,
vendo gente ao seu redor,
desconhecendo-se no trauma,
e nas dores desoladoras.
Ficou a ficar sem calma,
olhando para o corredor,
não via vivalma.

Era normal viver espatifado
como cacos de vidro pelo chão,
com o olhar desentranhado
quebrado com as marteladas de não.
E assim desde criança, instigado
a viver com resquícios do pão
do pão de não despenhado
sobre si, foi perdendo a razão.

Ronaldo Sérgio

Solidez de alma

Foto de José Veloso

Foto de Zé Veloso

A casa que mora em mim é assim:
entra o sol, passa o vento
e fica o cheiro da chuva de ontem.

Os cordões de luz
afrontam-lhe a solidez
batem contra o chão
e parecem rir das grossuras do frio.

Tudo lá fora mora ali dentro
o ruído do mundo e o espírito de Deus.

As portas e janelas, recostadas ao canto,
fazem sombras, balançando com o tempo.

Sua dor é a de ser alma
de ser corpo e de ser mundo
sempre cheia de vãos
de tanto compilar sonhos.

Ronaldo Sérgio

Hoje

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Foto do google

Queridos leitores e amigos blogueiros,

Já tem um mês de abandono. Mais um mês de solidão seguirá. Parte o meu coração e minha alma fica espatifada seguindo as horas dos dias pensando em vocês. Hoje, tive um momento meu, em algum lugar do mundo, para lhes dizer isso. Espero reencontrá-los em breve.

 

Ronaldo Sérgio